Cardeal Américo Aguiar: “Estamos a ficar afetados pelo vírus da globalização da indiferença”
publicado em 03-02-2026 | 10:27

“Uma sociedade mede-se pela forma como trata os mais frágeis” – disse o Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, na sua intervenção sobre os “Desafios da sustentabilidade social e demográfica - As mutualidades como expressão de solidariedade”, enquanto orador convidado da VIII Reunião Anual de Presidentes Mutualistas, que decorreu no último sábado, 31 de janeiro, em Vila Nova de Gaia.
Numa intervenção marcante, pela forma frontal e desempoeirada como abordou os temas, Américo Aguiar começou por referir que é fundamental “ouvir as comunidades, partilhar e cuidar juntos”.
Considerando que não podemos ignorar o voluntariado, nomeadamente dos dirigentes das instituições que disponibilizam o seu tempo, o seu conhecimento e que sacrificam as suas famílias para estarem ao serviço dos outros.
“Temos que fazer algo contra o populismo que faz de todos os governantes malandros e de todos os dirigentes das instituições pessoas que estão nestas coisas para se orientarem. É no café que isto começou e agora é nas redes sociais. Não podemos permitir que quem sacrifica o seu tempo e a sua família e amigos ainda tenha que levar com essa difamação, que vai minando a confiança nas instituições”, vincou, constatando que, por este caminho, “qualquer dia, assumir responsabilidades no governo ou nas instituições ou é loucura ou martírio”.
Logo no arranque, sublinhou a longevidade e a presença real das mutualidades no território e deixou um agradecimento direto a quem mantém o setor de pé, muitas vezes sem aparecer: “Portugal não era o que é, se não tivesse o trabalho de milhares e milhares e milhares de voluntários diariamente.” E estendeu um louvor aos que andam pelo país a cuidar de quem sofreu os efeitos do mau tempo.
A solidariedade, disse, tem de ser entendida como estrutura de vida coletiva, não como palavra de circunstância. Ao citar a Constituição, sublinhou que “a solidariedade é também um princípio estruturante da nossa vida coletiva”. E avisou para um risco de habituação ao sofrimento alheio, recuperando a expressão do Papa Francisco de que “Estamos a ficar afetados por um vírus que se chama globalização da indiferença”.
Quando falou do envelhecimento e da solidão, foi ainda mais duro. Lembrou casos-limite como de uma idosa que morreu sozinha na sua casa e só foi encontrada dois anos depois e não deixou margem para relativizar: “Isto não pode acontecer. É o nosso falhanço total como sociedade. (…) É eu não estar nem aí, para aquilo que é a vida do outro.” Nesse quadro, apontou mutualidades, misericórdias, IPSS e comunidades como travão ao abandono e fechou essa ideia com uma frase curta e pesada: “A solidariedade continua a ser a força mais resiliente da história humana.”
Américo Aguiar lembrou que “a realidade do território é muito pior do que aquilo que a gente vê na televisão”. E nesse quadro deixou um agradecimento explícito às mutualidades e à necessidade de articulação entre instituições, sem corridas descoordenadas, de forma a “não irem todas atacar com tudo e matar a ajuda”
Na parte dedicada às migrações, defendeu acolhimento com dignidade e regras claras, por respeito a quem chega e para cortar espaço à exploração: “Portugal é um país que acolhe com fraternidade, a todos, mas com os mínimos de regras.”
Quando abordou a importância da decisão para quem lidera, como ponto para o debate estratégico da Reunião dos Presidentes Mutualistas, o Bispo de Setúbal falou de sinodalidade como método de governação com escuta real e responsabilidade final: “A sinodalidade é gostar, querer, desejar ouvir o outro…, mas eu ouço para decidir”.
No fim, deixou uma mensagem para os dirigentes: responder ao envelhecimento, à solidão e à pressão sobre a proteção social com proximidade no terreno, contas equilibradas e decisões tomadas depois de ouvir quem está a viver os problemas.
publicado em 03-02-2026 | 10:27